
Dos misantropos diz-que que se sentem inadaptados ao mundo que os rodeia. Que desprezam as pessoas e mantêm-se afastados delas sob pena de "contágio".
House M.D., a melhor ficção que nos últimos anos me "colou" à TV mostra um pouco essa imagem.
Gregory House, brilhante como médico, sofrível como homem?
House não conhece o nome dos pacientes, prefere conhecer-lhes os sintomas, porque estes serão mais fidedignos. "Everybody lies". Todos mentem, porque é da natureza humana mentir, alterar os factos, rodear as questões, enfim... não ser transparente.
Mas será isso um sinal de desprezo pelas pessoas? House não detesta o ser humano, apenas se sente inabilitado a relacionar-se com ele. Nas palavras de Hugh Laurie: "House não liga aos doentes porque lhes prefere as doenças e seus desafios."
House não abomina a humanidade, apenas não suporta a sua hipocrisia. Perante isso, prefere uma franqueza inconveniente, por vezes adolescente, renegando todos os que pretendem fazer parte daquele "círculo da normalidade" e rejeitam o anormal.
No quarto episódio da terceira temporada - "Lines in the sand" - House mostra a sua concepção dum mundo ideal... no corpo duma criança autista. Eloquente.
"See, skinny, socially privileged white people get to draw this neat little circle. And everyone inside the circle is 'normal'. Anyone outside the circle needs to be beaten, broken and reset so that they can be brought into the circle. Failing that, they should be institutionalized. Or even worse - pitied (...) Why would you feel sorry for someone who gets to opt out of the inane courteous formalities which are utterly meaningless, insincere, and therefore degrading. This kid doesn't have to pretend to be interested in your back pain, or your seccretions, or your grandma's itchy place. Can you imagine how liberating it would be to live a life free of all the mind-numbing social niceties? I don't pity this kid. I envy him".
Será mesmo assim? A perfeição no alheamento?
Não acreditamos. Basta ler-lhe os pensamentos naqueles momentos finais, em que que assiste à caminhada serena do paciente curado para o exterior do hospital. Aí não esconde a sua felicidade porque mais uma vez o Homem derrotou a "Ordem Divina" e no fim prevaleceu a vida sobre a morte.
House, o "anti-heroí" fora do círculo.
Ave Caesar