
A nossa relação com a miséria alheia, por força da sua mediatização, começa a ter efeitos inócuos.
Pensemos nas muitas acções que desde os anos 80 são levadas a cabo por Bob Geldof, Bono, Oprah e, ainda recentemente, pela "socialite" Paris Hilton. Uma abordagem glamourosa mas pouco objectiva e de resultados duvidosos.
Dizem, muitas vezes, que "nós" - países ricos europeus e E.U.A. - somos coniventes, quando não culpados, pela fome que grassa em África.
Pensemos nos resultados práticos de todas as "nossas" acções. Deste 1960 que a África recebeu mais de 400 mil milhões de dólares de ajudas externas, entenda-se, donativos europeus e norte-americanos. Apesar disso, o PIB "per capita" do continente decresceu na média de 0,6% por ano entre 1975 e 2000. Ou seja, apesar do aumento das contribuições, a população foi ficando mais pobre.
Se em 1970, uma em cada dez pessoas que viviam com menos de um dólar por dia estava em África, em 2004, era uma em cada duas.
Outra perspectiva de analisar o problema é comparativamente. Os países da Ásia do Sul - Afeganistão, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Butão... - receberam apenas 21% do recebido pelos seus congéneres africanos. No entanto, o PIB "per capita" daqueles países subiu 2,94% anualmente.
Então, porquê esta disparidade?
A resposta é somente uma: a CORRUPÇÃO. Por toda a África reinam as cleptocracias. Regimes financiados com o dinheiro que é tirado aos pobres dos países ricos para ser dado aos ricos dos países pobres. Desde as independências que se assiste a uma fuga de capitais de países africanos na ordem de 400 mil milhões de dólares, valor que representa quase o dobro da dívida africana. Entretanto foram feitas fortunas individuais entre estadistas e ex-estadistas - José Eduardo dos Santos, Mobutu, Mugabe. Uma fila interminável de saqueadores que condenam à morte milhões de concidadãos.
A solução passará por repensar a forma destas ajudas ao desenvolvimento. E tanto a UE como os EUA têm que reflectir sobre as suas estratégias e conivências. África é, cada vez mais, um continente a prazo.
E a nós, marca-nos uma cada vez maior indiferença por sabermos que a vaga das nossas boas intenções não atingirá as praias dos mais pobres dos pobres.
Ave Caesar
FONTE: "Europa e África", José Cutileiro.
2 comentários:
É interessante verificar que a criatividade começa a desaparecer consoante os dias se afastam das polémicas à volta do PSD. É bom verificar que existe vida noutros locais, ainda que de mãos dadas com a morte. Comemorou-se o dia internacional contra a fome a semana passada, teria sido mais oportuno publicar esta peça nesse dia, mas compreende-se que ande um pouco afastado da realidade do mundo.
Afinal a Mealhada é também um mundo, só que tão ínfimo, que por mais voltas que dêem voltarão sempre ao mesmo local de partida.
Heraclito de Éfeso tinha a teoria de que uma Tartaruga partindo à frente nunca seria ultrapassada pela Lebre. Uma teoria tão simples de contrariar na prática, levou anos a ser comprovado contrário.
É assim a pobreza e a miséria humana, enquanto uns se degladiam pelos milhões que perdoaram aos "filhos", morrerão todos os "enteados", porque esses têm de pagar a factura, e por fim teremos a confirmação de nunca morrerão todos, porque há sempre alguém que tem de fazer o trabalho SUJO!
Caro tribuno,
Digamos que o nosso modesto trabalho é mais fruto da inspiração que da transpiração. Julgámos que seria banal escrever na efeméride, quando todos o fizeram também.
Ficamos, no entanto, gratos pelo seu contributo para a discussão do tema. Quanto às polémicas sobre a "partidarite" concelhia, a novela segue dentro de momentos.
Ave Caesar
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