
Por cada vulto da cultura que morre, não aparece nenhum para ocupar a cadeira.
É triste!
As nossas letras estão deficitárias.
Nos ultimos cinco anos, se tirarmos José Luis Peixoto, Jacinto Lucas Pires e mais dois ou três nomes, nada de novo aconteceu.
E morreram tantos...
11 comentários:
Esta morte apanhou-me de surpresae deixou-me um pouco abalada, embora soubesse da condição da sua saúde.
O Prado Coelho é, sem qq dúvida, uma perda fundamental para a cultura portuguesa, não só as letras, mas também o cinema e a arte em geral. Durante anos a primeira coisa que lia no Público eram as suas crónicas, um bálsamo. Além de ter o dom de conseguir comunicar o que alguma elite pedante considera ser apenas a eles inteligível, Prado Coelho desmistifica essa ideia peregrina de que o que é acessível a todos não é arte. Se o pai de Eduardo era um teórico literário incontornável nos estudos de literatura, Eduardo vai mais longe, introduzindo nomes, portugueses e estrangeiros (sobretudo da intelectulidade francesa e brasileira) na cultura portuguesa. Ainda que nem sempre tenha concordado com as suas posições políticas, é uma voz que vai fazer muita falta na provacação humilde (como só os muito bons sabem ser)com que interpelava as consciências de quem o lia. Que ao menos se tenha aprendido alguma coisa com ele, embora saiba que a grande parte da nossa população não faça ideia quem seja e da sua importância no abrir horizontes da cultura portuguesa. (Para quem não conhece muito bem, o jornal público, na edição online, tem disponibilizadas todas as suas crónicas no jornal. )
“Monday, August 27, 2007
Eduardo
Nunca gostei do Eduardo Prado Coelho. Encontrava nas suas palavras matinais a arrogância própria dos iluminados. Nele, ufano, todos os sinais de um insuportável diletantismo intelectual. Continuo a não gostar dele depois de morto. E, no entanto, para onde quer que olhe, dou de caras com epitáfios. Com pedras tumulares. Textos, todos ou quase todos, lacrimosos que leio e esqueço. A morte exige respeito, pudor e, sobretudo, brandura.”
(http://ana-de-amsterdam.blogspot.com/)
Homessa!
Então só porque V.Exa. não gosta do homem, acha que ninguem devia gostar?
Isso chama-se arrogância intelectual, normalmente má conselheira.
Passemos à frente.
Caro Lucius:
Pobre de quem perde a serenidade quando lhe tocam na corda sensível. Calma, homem, não se irrite! Não é uma questão de gostar ou deixar de gostar. Trata-se fundamentalmente de uma questão de respeito pelos mortos (deixem-nos em paz) e de aconselhar contenção no verter de lágrimas que, se excessivo, parecerão de crocodilo.
De resto, talvez lucrasse em dar uma vista de olhos ao Blog (devidamente citado) de onde retirei o texto do meu comentário anterior. Leia, e se aprender alguma coisa, ficarei muito feliz.
Caro diverso, começando pelo fim, pelo seu último comentário, o post que transcreveu não lamenta a onda de pesar pela morte de EPC por respeito à sua morte, mas porque a considera exagerada e absoleta, já que, para esta senhora, trata-se de um arrogante. Não queira dourar a pílula. Esta coisa do arrogante é tudo menos verdade, mas, além disso, vindo de alguém que tem um blogue onde não permite comentários - e por isso não permite críticas num enrolar doentio e autofágico do "ego" - tem a sua ironia. Mas, ainda que seja normal que pessoas como esta senhora não gostem de um EPC (porque EPC dava livre acesso à cultura às pessoas comuns e não só a uma elite que se aborrece por ver o Zé da esquina a ler o mesmo livro que elas - se é popular, não deve ser bom; se está nos tops, pior um pouco), imaginemos que ela tinha razão, que o EPC era um arrogante. Se o fosse, podia sê-lo. Dostoiévski também era um filho da mãe e não só escreveu soberbamente como captou toda profundidade do existir humano; e os exemplos são tantos! Esta senhora, no entanto, numa arrogância própria dos que se acham maiores não passa de um pastiche de uma ideia de ilustração pequeno-burguesa.
O EPC produziu mais cultura que esta senhora provavelmente suspeita. Vou dar-lhe alguns exemplos.
Em 1972, além de ter publicado os seus dois primeiros livros, traduziu para português Satre. Sabe que idade tinha? 28 anos. Nos anos seguintes, fez prefácios de Roland Barthes, de Derrida (em 1975! Quem em Portugal sabia quem era Derrida em 75? Faz ideia?), deu a conhecer Maria Gabriela Llansol, uma estranha que passou a ser exponencialmente lida, escreveu livros, publicou centenas de artigos desde o Público ao Cólóquio de Letras e Jornal de Letras, ... Mas que presunção é esta desta senhora dizer arrogante EPC?
E, para terminar, só tive o prazer de estar com ele uma vez, há dois anos, em Coimbra, na apresentação de um livro, onde estavam cerca de 40 pessoas (o espaço não dava para mais) e garanto-lhe que não vi ponta de arrogância neste homem; pelo contrário. Arrogantes são as centenas de professores universitários que temos neste país, que além de venderem péssimas aulas não produzem um chavo que engrandeça a nossa cultura; arrogantes são estes pseudo-intelectuais que não sabem diferenciar empatias pessoais da obra e acham que ser do contra é que é in, é que é remar contra a maré. Bem escreveu José Gil que o problema de Portugal é a inveja.
E digo-lhe ainda, que muitas vezes não concordei com EPC, desde algumas questões políticas a polémicas como aquando da defesa de Boaventura Sousa Santos; isso, no entanto, não me permite dizer que ele era um arrogante; mas quem sou eu?. Haja um pouco mais de humildade e mais idas nuas ao espelho, caramba!
Caros tribunos,
Os homens e as mulheres da cultura nunca são consensuais. No entanto, e julgo ser questão essencial, jamais podemos não admirar alguém que veicula erudição somente porque não partilhamos os mesmos ideais.
Imensos são aqueles que contesto por posições assumidas, mas admiro porque me enriquecem (logo à tona, lembro-me de Saramago).
Em EPC admiro algo que já aqui foi mencionado: o fazer-nos ver que a cultura é acessível a todos e não é coutada das elites pedantes.
Recentemente, lembro-me das cartas trocadas com D. José Policarpo, que demonstram que EPC, não sendo católico, não é obtuso.
De facto, com a sua morte rasga-se mais uma página da cada vez mais escassa cultura portuguesa.
Ave Caesar
Cara Lua-de-mel-lua-de-fel:
Numa coisa estou de acordo consigo e com José Gil: o problema de Portugal é a inveja. Quanto a ser ou não arrogante, embora não o tivesse conhecido pessoalmente como você, tenho a ideia de que pelo menos nalgumas ocasiões era impulsivo e primário na crítica/condenação de algumas pessoas, coisa aliás que, diga-se em seu abono ele próprio às vezes reconhecia, três ou quatro crónias depois, pedindo desculpa. Precipitação? Impulsos primários? Arrogância?
Mas seja como for, o mais importante não é o carimbo arrogante ou não arrogante. É a contenção. José Gil não o disse, provávelmente, mas é uma constatação objectiva de que, depois de mortos, a maior parte dos portugueses possam quase sempre de bestas a bestiais.
Caro diverso, antes de mais perdoe a minha irritação no último comentário. No meio dela esqueci-me de referir o que acaba de dizer, das ocasiões em que EPC deu a mão à palmatória e pediu desculpas. Ora, quem pede desculpa, sobretudo publicamente e em nome próprio, não será, com certeza, arrogante. Os erros são comuns em quem tem a coragem de se expor (trata-se, verdadeiramente, de coragem, sobretudo num país como Portugal que tem pavor de todo e qualquer conflito e prefere as seguras águas mornas) e admiti-los revela superioridade intelectual e de carácter. Penso que os pensadores estão mais preocupados em encontrar uma verdade do que se envaidecerem com as suas posições e, assim sendo,errar não será senão a chance de evoluir no pensar. A isto não chamo arrogãncia.
Quanto à passagem de bestas a bestiais é verdade no geral (o que terá que ver com o peso ancestral da religião), mas não deve servir de base para avaliar todas as situações. Infelizmente, não é só a morte que faz essa transmutação, mas mesmo em vida todos nós passamos facilmente de bestiais a bestas e de bestas a bestiais, desde o futebol à política, passando pela maioria das relações humanas. E tudo, repito-me, porque as maioria das pessoas se melindra com as palavras, com as críticas, com qualquer tipo de conflito, mesmo que este sirva valores nobres.
Está perdoada, Lua-de-mel-lua-de-fel, está perdoada.
Creio que no essencial já percebeu a minha posição, tal como eu percebi a sua.
Permita-me só uma exotação: não ande por aqui tão tarde, fico preocupado com a sua saúde (ou será o Blog uma terapia para as suas insónias?)
Exortação, era exortação que quera escrever, Lua-de-mel-lua-de-fel. Só mais um pormenor: não percebi a sua alegação de que a responsabildade era do peso ancestral da religião. Não percebi o que é que a religião tem a ver com isto.
Também você, lua-de-mel? Você também hiberna ao fim de semana, como todos os restantes idiotas deste Blog?
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