terça-feira, 24 de julho de 2007

Traumas de guerra


“Almoço com a minha filha mais velha, pelos seus anos, num dos restaurantezinhos próximos do sítio onde escrevo. De vez em quando o telemóvel dela toca e parabéns, parabéns, aqueles que não consigo dar-lhe porque no dia do nascimento estava a dez mil quilómetros de distância. Não perdoo quase nada à ditadura e o que menos lhe perdoo foi não ter assistido à gravidez da mãe e e não estar presente quando chegou. Soube da sua vinda ao chamarem-me à barraca do rádio, por uma mensagem de Luanda, no dia seguinte, e apenas uma ou duas semanas depois chegaram fotografias pouco nítidas, enevoadas pelas minhas lágrimas de emoção e raiva. Uma filha fantasma em que não podia tocar, não podia ter ao colo, não podia beijar. Lembro-me de ter ido para junto do arame farpado, sozinho, num sofrimento imenso, e diante de mim, o rio, a mata, a infinita paisagem da minha dor.”…

“Volto a África (não é a sensação de voltar a África, é de não ter saído de lá) estou em África e um soldado vem chamar-me à barraca do rádio. O cripto entrega-me um papel – Rapariga – e eu de papel em riste, aparvalhado incrédulo, com o coração num pingo. Como esta expressão é verdadeira: o coração num pingo. Não é uma imagem nem uma metáfora. De forma que na semana passada, no restaurantezinho perto do sitio onde escrevo, o coração num pingo.”
“Rapariga
a ler
Rapariga
a ler
Rapariga
Diante do silêncio dos soldados, do silêncio da mata, do silêncio de Angola. Sou um pingo fardado, uma gotinha que vibra. Sou um alfereszito de vinte e tal anos a tremer contra o arame farpado.”…
”O Eleutério chegou ao meu lado e ficou ao meu lado. Nenhum de nós disse nada. E, apesar disso, que conversa comprida, cheia de fúria e alma em tiras, naquele silêncio. Agradeço-te, Eleutério, o que trocámos sem palavras.
O capitão para mim
- Parabéns, parabéns
e compreendi nesse momento que a resposta possível a
- Parabéns, parabéns
era a cabeça voltada para o outro lado e a exclamação
- Caralho
tão baixinho que o mundo inteiro ouviu."

(António Lobo Antunes, excerto da crónica “21 de Junho”, in Visão, 05/07/2007)

Da guerra colonial sobreviveram não só os traumas dos estropiados mas daqueles a quem roubaram o mundo. Lobo Antunes soube dizê-lo, numa das mais belas crónicas escritas.

Ave Caesar

5 comentários:

Anônimo disse...

Escrevia o Lobo Antunes, há uns anos valentes, numa crónica, que o maior elogio que se podia dar a um grande escritor era "Ai grande filho da puta!", epíteto que se poderá dar a esta crónica, bem como a quase toda a escrita deste autor. Um autor brilhante, que não terá mais reconhecimento pq tem uns amargos de boca jeitosos em relação a outros escritores.

Anônimo disse...

"Maria
Eu aqui estou bem, não há guerra nenhuma, isso é lá mais para o Norte. A alimentação é boa e tudo corre pelo melhor. O tempo passará e depois nos voltaremos a encontrar e a viver a nossa vida..."
Este era o introito repetitivo das minhas cartas para a namorada...e para a família...
A verdade era bem diferente, de muito sofrimento físico e psíquico. Mas para quê contar a verdade se além de corrermos o risco de sermos incomodados pela PIDE, só iríamos aumentar o sofrimento dos nossos familiares?
É pertinente lançar o repto aos ex-combatentes para, agora, contarmos os nossos episódios, vividos. Poderão ser histórias de vida úteis para os nossos jovens de hoje.
Fica o repto. Alguém que pegue no assunto. Por mim colaborarei com gosto.

Anônimo disse...

Uns escrevem, outros levam os premios Nobel...

Gaius Germanicus disse...

Caros tribunos,
De facto, a Guerra Colonial é recorrente nas obras de Lobo Antunes, não se descortinando muitas vezes onde acaba a ficção e se iniciam as memórias das suas próprias experiências em Angola.
Em "Boa tarde às coisas aqui em baixo" diversos aspectos da comédia humana do horror e do desespero que percorre hospitais psiquiátricos, a insanidade que se cola aos homens, a morte sem honra, são por ele brilhantemente relatados.
Não sendo de fácil digestão, as obras de Lobo Antunes, para além da componente literária, constituirão um verdadeiro documento histórico para a compreensão dos horrores da Guerra Colonial.

Ainda a propósito da comparação com o laureado Saramago que por um punhado de sestércios nos vendia a Espanha, Lobo Antunes disse um dia: "Cada vez gosto mais de ser português e cada vez tenho mais orgulho no meu país. É-me insuportável ouvir dizer «somos um país pequeno e periférico». Para mim Portugal é central e muito grande."

Há grandes escritores em Portugal, mas Lobo Antunes é ENORME.

Ave Caesar

Anônimo disse...

Caro anónimo 1: sobre esta questão já tivemos a oportunidade de conversar no amote, onde tivemos a preciosa partilha de alguém, da Pampilhosa, que usava o nick "sentil'alerta", que infelizmente nunca mais apareceu. Este senhor falava, na altura, da possibilidade de se escrever um livro de memórias, ideia que me parece interessante, pois são ainda muitos que, tendo estado lá, ainda sofrem traumas silenciosos. Todas as guerras são uma tragédia, mas se se conseguir, com a experiência dela, aprender alguma coisa menos mal. Reforce o repto.