
"Terminei o poema e levei-te o terceiro acto. Conduziste-me junto da cadeira, defonte do canapé, abraçaste-me e disseste: "Agora já não desejo mais nada na vida".
Nesse dia, a essa precisa hora, nasci de novo. Até então fora uma vida preparatória. Depois começou a minha vida póstuma. Mas nesse momento maravilhoso vivi o meu presente. Sabes bem como o recebi: não sobreexcitado, tempestuoso, inebriado, mas solenemente o recebi, doce, calorosa e profundamente perturbado, e como que olhando o infinito diante de mim.
Cada vez me desligara mais dolorosamente do mundo. Tudo em mim se tornara negação, recusa. As minhas próprias criações eram-me apenas sofrimento, nostalgia, e um insaciável desejo de opor a essa negação, a essa nostalgia, uma afirmação - além de poder desdobrar-me num outro eu. Esse momento único concedeu-mo. Uma mulher terna, tímida, receosa, lançou-se corajosamente no oceano de sofrimento para me oferecer esse instante adorável; para me dizer: amo-te.
Foi como se te tivesses dedicado à morte para me dares a vida; e eu recebi a vida para contigo sofrer e morrer."
R. Wagner demorou quatro longos anos a estruturar o poema de "O Anel dos Nibelungos". Terminado tal doloroso empreendimento, escreve a Liszt: "Nunca me senti tão em acordo comigo mesmo sobre o desenvolvimento musical do meu poema. Agora só preciso de um estímulo vivo para atingir o estado de alma de onde jorrarão, álacres, os motivos desta obra.".
O estímulo conheceu-o nos braços de Mathilde Wesendonk, a quem endereçou esta carta.
in Tabu, 01/03/2008
Ave Caesar
14 comentários:
Mathilde foi "roubada" a um amigo (mantinham um caso, de pouco tempo, e este sabia), sendo Wagner casado. Depois desta, já separado, foi a vez de "roubar" a filha do amigo Liszt,também casada na altura.Um pinga-amor, portanto. Wagner teve uma vida atribulada, foi sobretudo um livre pensador e Nietzsche tinha razão (quando ainda se davam bem) em tê-lo num pedestal. Parabéns pelo post.
Se tivesse vivido na primeira metade do sec XX, Wagner teria composto o hino do III Reich.
Hitler bebeu muita da sua loucura expansionista na obra de Wagner.
Não confundir, meu caro, a obra com o uso que dela se fez. Aliás, Wagner até, dizem, foi perseguido por ser de esquerda. O uso que Hitler lhe deu teve que ver com uma nora (?) de Wagner, que era nazi. O mesmo dir-se-ia de Niezsche (tanto apadrinhado pelo comunismo como pelos nazis).
Tanta intelectualidade se respira por aqui! E da mais refinada! Sabem tanto, estas pessoas, especialmente a Lua (será Cheia? ou estará Nova?).
Apesar destas pedantes exibições da mais pura erudição intelectualoide, parabéns, Gaius!!
Sabe bem, de vez em quando, ler um texto prenhe de conteúdo, gordo de substância, mesmo que os censores se apressem a vir cataloga-lo nas prateleiras dos seus valores pessoais...
caro anónimo, o meu primeiro comentário terá sido tudo menos um exercício de pedantismo, roçando, até, a boçalidade; o segundo trata-se apenas de bom senso (tem tantos outros exemplos meus melhores onde pode querer ler o meu suposto pedantismo...). Mas o meu comentário levanta uma questão, bem mais interessante para mim do que falar das minhas virtudes (vê?!), que se prende com a catalogação na preteleira dos valores pessoais. Não sei se isso era a mim endereçado, mas se sim gostava de saber em que sentido diz isso.
Grata por se preocupar com as minhas idiossincrasias vituais (não sei, realmente, se mereço tanta atenção).
meu> seu; preteleiras >prateleiras (o senhor deixou-me nervosa)
A Lua reage! É afinal uma Lua Cheia! E reage de pêlo eriçado! Mau sinal. Ou o que escreveu antes foi espontâneo, sentido e verdadeiro, e nesse caso não se compreende a falta de serenidade. Ou então, se foi como eu digo uma representação de erudição intelectualoide refinada e pedante, não tem de que se queixar.
Quanto às prateleiras dos valores, cada um tem as que tem e ninguém tem nada com isso. O que me irrita é que, muitas vezes se venha a terreiro defender valores (a maior parte das vezes seguindo os cânones do políticamente correcto e quase sempre só para inglês ver) a propósito de tudo e de nada.
E ospois, Lua?
Vais mandar prender-me?
E se fosses ameaçar o outro?
Meu caro, mesmo parecendo estarmos destinados a não nos entendermos e que não consigamos sair de discussões de lana caprina, voltava a pedir-lhe, uma última vez, para explicitar a questão dos valores, já que o senhor se limitou, uma vez mais, a praticar uma avaliação que condena por princípio. (E meu caro não tenho por norma ameaçar quem quer que seja, muito menos ameaçarei alguém que não constitui ameaça alguma à minha pessoa.)
Tenho princípios e faço avaliações (todos temos de as fazer, a cada minuto da nossa vida). Mas não decreto condenações. Não condeno ninguem a pena alguma. Quem tem olhos que veja. Quem tem ouvidos que ouça.
Já agora gostaria de saber se é realmente sua a iniciativa da consulta do IP (não o negou, até agora). É que é no mínimo muito estranho que, quem, a despropósito, cita Hitler, se apresse logo de seguida a praticar os métodos da Gestapo...
Bem, começo por supor que esta entabulação é sempre com o mesmo anónimo. Partindo deste pressuposto, há que colocar alguma ordem no raciocínio: antes de mais, não fui eu quem com despropósito num post sobre Wagner referiu Hitler, de modo anacrónico, limitando-me eu a sublinhar o anacronismo da leitura (e a referência a Nietzsche não foi onanismo intelectual, mas uma antecipação, já que Nietzsche e Wagner não só são contemporâneos, como sobre ambos pairam este género de leituras anacrónicas engajadas, sobretudos, no nazismo); em segundo lugar, não fui eu quem condenou avaliações (lendo pedantismo, o politicamente correcto,...). Obviamente, todos fazemos leituras valorativas, todos temos filtros, e, por isso, não foi ingénua a minha insistência numa resposta sua, prevendo que concordaria e, com isso, inviabilizaria o seu comentário sobre o que o senhor supõe animar o meu comentário: o senhor não se limitou a avaliar um comentário, mas, a partir daí, transcendo-o, fazer juízos de valor, anatematizando quem o proferiu. Ficou por responder, contudo, em que palavras minhas tirou todas essas ilações valorativas. A única possibilidade que encontro para que pense que eu fiz uma leitura "politicamente correcta" (e começa a ser politicamente correcto condenar o politicamente correcto e lá estamos nós na arrumação maniqueísta do mundo)reside no meu primeiro comentário. Tem a liberdade de fazer a leitura que quiser da intenção que me moveu, mas o teor conservador do meu comentário foi algo que o senhor quis ler e não uma intenção minha (intenção que não lhe tenho de justificar, mas que o senhor se apressou justificar a partir dos seus esquemas mentais e de modo unilateral, onde entram mais empatias do que racionalidade e razoabilidade que devem pautar a honestidade intelectual).
Quanto à perseguição da sua pessoa, já lhe respondi, no meu anterior comentário, entre parêntesis,mas se necessita de uma resposta mais chã: Não.
Só tem razão numa coisa: não foi, efectivamente a Lua quem a despropósito se referiu a Hitler pela primeira vez. Foi o anónimo das 16:13 de 7 de Março. Desta imprecisão me penitencio e reconheço agora que todo o meu comentário foi talvez precipitado e injusto para a Lua, por, na velocidade com que fazemos a leitura dos Blogues, não ter tido, na altura, a exacta percecepção de quem escreveu o quê.
Quando ao resto, nomeadamente o que diz referindo-se ao seu primeiro comentário, estou completamente inocente. Não tinha qualquer intenção de criticar a substância do comentário, mas apenas a exibição de erudição, pedante e gratuita, repito-o. Não consigo até perceber a que mais é que poderá referir-se, quanto a esse seu primeiro comentário...se involuntariamente provoquei algum rebate de consciência, lamento, mas não tinha qualquer intenção.
Quanto a honestidade intelectual, empatias, racionalidade e razoabilidade, dir-lhe-ei simplesmente que não me conhece.
E nada mais lhe direi, a não ser que tenho muito mais que fazer do que ler "tantos outros exemplos meus melhores onde pode querer ler o meu suposto pedantismo...", como escreveu no seu post de 8 de Março.
Ainda bem que nos entendemos, mesmo divergindo, pois o meu primeiro comentário foi quase de vão de escada - erudição, para mim, seria falar da obra de Wagner e não, no seguimento do teor do post, dos amores de Wagner (e, por isso, não houve qualquer rebate de consciência da minha parte, nem me moveu nesta conversa consigo qualquer restauração de uma dignidade pretensamente violentada ou justificação, mas apenas compreender a sua irritação por um comentário tão inócuo como o meu. Acredite-me, não me levo assim tão a sério.). Não nos conhecermos para fazer juízos de valor sobre o carácter de cada um foi exactamente o que lhe quis dizer no comentário anterior. Ainda bem que tal ficou esclarecido.
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