
Em 1992, Francis Fukuyma anunciava o fim da História. Na sua obra “The End of History and the Last Man”, teorizava que com a queda do muro de Berlim e o consequente desmoronamento do Império Soviético, a democracia liberal prevaleceria e tornar-se-ia global e globalizante.
Como a maior parte das teorias, a probabilidade de falibilidade é enorme. E a demonstração do erro ocorreu perante os nossos olhos em 11 de Setembro de 2001.
Como a maior parte das teorias, a probabilidade de falibilidade é enorme. E a demonstração do erro ocorreu perante os nossos olhos em 11 de Setembro de 2001.
Desde essa fatídica data a nossa concepção de segurança e estabilidade ocidentalizada claudicou perante o fanatismo que se propagou, qual pandemia, por todo o nosso civilizado mundo.
Já na madrugada de Sábado a polícia britânica desmantelou engenhos explosivos colocados dentro duma viatura num local habitualmente muito frequentado. Neste mesmo dia, um outro atentado foi praticado em Glascow, desta vez com êxito mas, felizmente, sem vítimas mortais.
Agora que o terrorismo nos entrou pela porta da frente, cabe-nos reflectir sobre toda política que vem sendo praticada nas últimas décadas. Políticas de integração falhadas, liberdade religiosa para propagandistas anti –ocidentais, criação de verdadeiros feudos fundamentalistas escudados pelas nossas tolerantes democracias e, pelo outro lado, um cinismo atroz quando permitimos que em determinados países se recrutem terroristas nas franjas mais pobres e desfavorecidas, nos indigentes a quem a vida terrena nada mais promete, enquanto alimentamos as cleptocracias do petróleo que promovem o fundamentalismo.
Agora que o terrorismo nos entrou pela porta da frente, cabe-nos reflectir sobre toda política que vem sendo praticada nas últimas décadas. Políticas de integração falhadas, liberdade religiosa para propagandistas anti –ocidentais, criação de verdadeiros feudos fundamentalistas escudados pelas nossas tolerantes democracias e, pelo outro lado, um cinismo atroz quando permitimos que em determinados países se recrutem terroristas nas franjas mais pobres e desfavorecidas, nos indigentes a quem a vida terrena nada mais promete, enquanto alimentamos as cleptocracias do petróleo que promovem o fundamentalismo.
Londres assinala dentro de oito dias o segundo aniversário dos atentados de 7 de Julho, que fizeram 56 mortos. Desde então nada mudou.
A constante reflexão e a procura de sentido, no entanto, urge fazer-se, sob pena de regresso aos califados.
Ave Caesar
A constante reflexão e a procura de sentido, no entanto, urge fazer-se, sob pena de regresso aos califados.
Ave Caesar
6 comentários:
As verdadeiras cleptocracias do petróleo não estão lá, nos produtores, mas sim em toda a cadeia interminável de intermediários, com a cumplicidade gorda e anafada dos consumidores que se imaginam instalados num pseudo elevado nível de vida, que nos há-de matar a todos.
Tenha algum cuidado com o uso de alguns conceitos, como o de civilização e fanatismo; podemos ter um regime político melhor, mas civilização todos os povos do mundo têm. Quanto ao fanatismo, foi um conceito que surgiu nos EUA.
Quanto ao resto, o ocidente está a passar em muito menor grau aquilo que milhares de pessoas passam todos os dias durante uma vida inteira, desde guerras a pobreza extrema. Que arrogância é esta de acharmos que, no planeta Terra, merecemos sorte diferente? Somos superiores em quê? Temos tido sorte em não termos tido mais baixas civis, coisas que os outros países têm. Esquecemos todos do velhinho "quem vai à gerra, dá e leva", independentemente de quem tem razão?!
Cara lua de mel,
Acredite que não sou preconceituoso, mas há determinadas evidências que não nos permitem pensar de forma diferente. Há dias Clara Ferreira Alves, uma profunda conhecedora do mundo árabe, dizia qualquer coisa como "um árabe raramente diz o que pensa e faz sempre o contrário daquilo que diz". Diria também que esta caracteristica é uma questão civilizacional. Obviamente que o fanatismo não é exclusivo do mundo árabe. Aliás, o fanatismo religioso encontra-se bem presente em muitas franjas do nosso mundo ocidental, mas com uma única diferença. Por ora ainda não nos cortam as mãos por professarmos uma qualquer doutrina.
Seria também interessante discutirmos a posição invisível da mulher nessas "civilizações", mas sobre este tema teríamos matéria para uma tese.
Em resumo, qualquer civilização será civilizada, mas há formas de civilização que chocam com aquilo que conquistámos há séculos e há determinadas liberdades das quais não pretendo prescindir.
Ave Caesar
Errata ao meu comentário: em vez de "fanatismo" queria ter escrito "fundamentalismo".
Caro Gaius,
antes de mais, a Clara Ferreira Alves se fosse conhecedora do mundo árabe não diria um cliché desses. Aliás, esta senhora, apesar de ter sido uma boa jornalista, deixa mto a desejar quando se transmuta em crítica literária e opinion maker.
Não é só o mundo árabe que mata em nome da religião, não podemos olvidar a nossa história ociedental e, além disso, entre matar por uma fé e matar em nome de um ideal será assim tão diferente? Quanto aos mãos: tb temos estados democráticos que têm a pena de morte.
Concordo com uma coisa (da qual não discordei no primeiro comentário meu): há direitos que são universais porque o que é desumano é-o em qualquer parte do mundo. É esse o meu (frágil) critério, porque não encontro outro plausível. Mas desumanidade não a tem apenas no mundo árabe, têm em muitos países que preferimos esquecer ou fazemos por ignorar certos factores. Quando foi o genocídio na Serra Leoa, depois da retirada do local dos capacetes azuis da ONU, não vi contigentes militares ocidentais a ajudar a evitá-lo, contra todo e qualquer juramento que as nações fizeram em sede das Nações Unidas. Os exemplos multiplicam-se. Não é a uma guerra cultural a que estamos assistir, mas unicamente, como todos sabemos antes mesmo da guerra no Iraque, uma guerra económica. Esta hipocrisia dá-me asco.
Em relação às mulheres, e sendo mulher de um dos países ocidentais com mais casos de violência doméstica (etc.) - e evitando a tese, que de facto daria - aplico a mesma regra: o critério da humanidade e do desumano. Tanto cá como lá.
Cara lua de mel,
Permita-me, em primeiro lugar, agradecer-lhe o contributo sapiente com que nos tem brindado. É sempre um prazer lê-la.
De seguida, devo dizer que discordo da opinião que tem sobre a cronista/escritora CFA. Na verdade, e não obstante afirmar que a frase que utilizou será um "cliché", entendo e tenho lido diversos apontamentos da jornalista que demonstram bastante clarividência sobre o mundo árabe.
Partilho da sua opinião quando diz que as "guerras de ideais" não são um fenómeno do mundo árabe. É verdade que no ocidente muitos foram os ideais para justificar a barbárie. Mas felizmente terminaram em bem com Nuremberga ou os julgamentos do TRibunal Penal Europeu. E nisto reside a diferença do mundo ocidental sobre a grande nação islâmica: no fim prevalece o Estado de Direito sobre a loucura dos homens. Poderão outros dizer o mesmo?
Não ignoro também a hipocrisia ocidental que permitiu chacinas onde devia ter tido uma intervenção séria e dissuasora. Para além da Serra Leoa, lembro-me das tragédias do Sudão, Somália ou Ruanda. É lamentável que os ideais económicos muitas vezes prevaleçam.
Sobre as mulheres direi sempre que um caso de opressão será sempre demais. Mas temos evoluido imenso nos últimos 30 anos, quando então ainda não existia o estigma que hoje julgo existir perante todo o tipo de abusos e violência doméstica.
Chamará civilização aos regimes seculares árabes? Sempre entendi a civilização como algo evolutivo, algo que se movimenta em busca dum ideal de igualdade, humanidade, progresso e bem estar. Não posso estender este conceito ao mundo árabe - falo somente de regimes retrógrados - que foi, é e será uma "civlização estática".
Ave Caesar
Caro Gaius,
Antes de mais obrigada pela almofadinha retórica.
Em relação à Clara Ferreira Alves, podemos, um dia destes, falar de todo o seu percurso e avaliar as suas competências, bem como nas contradições e análises superficiais em que tem entrado, sob uma capa de menina rebelde e independente que nunca o foi. Não obstante, e dou, obviamente, a mão à palmatória por ignorância minha, não tenho lido grande coisa – tirando alguns clichés e más generalizações como esse juízo lapidar que o Gaius referiu – da CFA sobre o dito mundo árabe, e, por isso, só tenho de acreditar no que me diz… até poder mostrar o contrário.
Muitos são os teóricos e estudiosos que tentam compreender o mundo árabe, muitas vezes de modo pouco imparcial (o que será normal no confronto entre culturas), dividindo-se, amiúde, entre pró-árabes/ anti-americanos e anti-árabes/pró-americanos. Não me incluo em nenhum deles, nem tenho a pretensão, como sei que o senhor não a tem, de chegarmos a uma conclusão universal e pacífica. Fica a salvaguarda.
Antes de mais, parece-me, há que distinguirmos terrorismo de “mundo árabe”, que é tecido por muitas vozes, com evoluções e retrocessos no que respeita a um dos princípios basilares da nossa democracia: a liberdade. O terrorismo não tem pátria, o mundo árabe é constituído por países soberanos. Ao confundirmos um com o outro – e tratar-se-á de uma confusão consciente e voluntária – colocamos em causa o princípio da soberania dos povos, dos Estados, ou seja, colocamos em causa a paz, entrando, como diria Hobbes, na lei do mais forte, princípio que rege a natureza. Aliás, o repúdio que os estados soberanos têm ao terrorismo é exactamente este, o facto de ele se reger por princípios que não respeitam pactos entre estados nem a sua identidade enquanto soberanos. E aqui entraríamos na questão da legitimidade dos Estados, isto é, daquilo que os legitima enquanto soberanos e, também aqui, teríamos material para uma tese [há alguns contributos, como “A teoria geral do Estado” do Zippelius, mas ainda deixam (muitas)coisas por resolver].
Em relação à sua pergunta final, falamos de coisas diferentes. Civilização não é o que diz. Civilização é, grosso modo, um conjunto de características e traços culturais (que dão identidade ao povo ou povos)+ organização social + estrutura políticas e culturais. Se assim não fosse, não poderíamos falar da civilização Maia, e.g. . O que estamos, parece-me, a tentar discutir são os regimes políticos de alguns países árabes, ou de todos, quiçá. O que é diferente de dizer se eles são uns primatas. E, já agora, recordo a importância de Bagdad como centro cultural na Idade Média (antes de Paris), ponto de convergência de pensadores europeus. Aliás, os gregos clássicos chegaram até nós pelos árabes, que traduziram do grego e ajudaram na tradução para o latim (existiam, mesmo, traduções a “quatro mãos”). Dizer que estes povos não são civilizados é uma barbaridade.
E voltamos ao ponto inicial. Se me perguntar que concordo com o regime político e social (e cultural) de grande parte dos países do mundo árabe, digo-lhe sem hesitação: não (como não concordo com muitos não árabes). Se me pergunta se, por isso (e nem por isso é, nos casos presentes), está legitimada uma guerra aberta a esses países, digo-lhe, também: não. Esqueceremos nós que nesta guerra as vítimas o são duas vezes? Se me perguntar se penso que os Estados democráticos – e a ONU não devia ser a fachada que é – devem zelar, respeitar e promover os direitos humanos, respondo-lhe, tb sem qq hesitação: sim. Se posso concordar que um país use princípios democráticos para disfarçar interesses económicos e assim legitimar, à revelia das Nações Unidas (e de modo unilateral, que depois traz consequências às próprias nações) a invasão de um povo usando o obsceno conceito de guerra preventiva (Iraque) e o pornográfico olho-por-olho-dente-por-dente (Afeganistão, que não foi senão o pretexto), digo-lhe sem qualquer dúvida: não.
E da mesma forma que não há línguas mortas, também não há civilizações estáticas. Veja o Irão – que, compreensivelmente aposta na guerra-fria do nuclear – já foi uma sociedade mais aberta do que hoje.
Perdoe a extensão do comentário,e prováveis bocejos, mas 'noblesse oblige'…
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